Category Archives: Estudos Bíblicos

A Qeri’at Torah

A Qeri’at Torah é precedida e seguida de duas bençãos próprias. A primeira oração: “Sê bendito, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que nos escolheste entre os povos e nos deste a Torá. Sê bendito, Senhor, que nos deste a Torá”.  O texto da segunda oração é: “Sê bendito, Senhor nosso, rei do universo, que nos deste a Torá da verdade e plantaste em nosso meio a vida eterna. Sê bendito, Senhor, que nos dá a Torá”.

Com estas bençãos o judeu fiel proclama a Deus como noten há-Torah, dando/doando a Torá. O participio presente (noten há-Toráh) quer esclarecer a continuidade da ação de falar e revelar de Deus, cujo âmbito não é mais nem o passado nem o futuro, mas hic et nunc (aqui e agora). Participando das leituras das sinagogas é como se o fiel hebreu anulasse a distância temporal e se tornasse presente à aliança do Sinai, quando Deus entregou a Moisés a Torá.

Além de afirmar que a Torá é de origem divina, as duas bençãos afirmam a qualidade de seu conteúdo e sua finalidade – ela é definida como Torat ‘emet (Torá da verdade) e sua finalidade é de conceder hayye ‘olam (a vida eterna). A “verdade” na Bílbia, mais do que um predicado ou de uma ideia (mais ou menos falsa) é o predicado de uma pessoa ou de um objeto: se é mais ou menos forte. O radical ‘emet é ‘mm que significa ser forte/ser estável, tanto no sentido passivo (estar em pé) como no ativo (manter-se em pé).

A propósito, algumas referências bíblicas podem ser elucidativas. No 2º livro dos Reis 18.16 fala-se das colunas do templo como ‘omenot (estruturas que sustém) e no 2º livro de Samuel 4.4 fala-se da babá como ‘omen, literalmente: “quem carrega nos braços e é capaz de garantir cuidados maternos”. Qualificar a Torá como ‘emet significa afirmar seu valor existencial: ela, como as “colunas” do templo, sustenta a vida e como as mãos da mãe doa e enriquece a vida.

Torat ‘emet, a Palavra de Deus é dada ao homem para que lhe abra hayye ‘olam, a vida eterna. Poucas expressões foram tão mal compreendidas e interpretadas como essa pela tradição cristã. O termo ‘olam (eternidade), na Bíblia, não se opõe ao tempo histórico, mas constitui seu conteúdo e plenitude. Para ela, a “vida eterna” não é aquela que vem depois da morte, mas aquela que, superando sua vaidade exterior e cronológica, faz desabrochar toda sua beleza e sentido. Não é sem razão que, de acordo com alguns autores, o radical de ‘olam é ‘lm, que significa esconder e por isso ‘olam significaria propriamente “tempo oculto”, “tempo escondido”. A vida eterna é a vida tomada na sua profundidade “oculta”, que a sustém contra aquela puramente material, medida pela sucessão temporal. A vida “eterna” é a vida plena de sentido, não somente subjetivo, mas objetivo, ao contrário daquela que é marcada pelo vazio.

Pr Marcelo de Oliveira 

 

Avodah, hodayah, birkat kohanim

As três bençãos que encerram a tefillah são chamadas “bençãos de agradecimento” porque nela prevalece o tema do reconhecimento e da gratidão a Deus. Na realidade, das três bençãos, só a do meio desenvolve explicitamente o tema do agradecimento, enquanto as outras duas retomam o tema da invocação, pedindo a Deus respectivamente a restauração do culto do Templo e a realização do shalom, da paz. 

Historicamente, estas três bençãos tiveram sua origem na liturgia do Templo, fato este que explica sua unidade e dinamismo. A primeira benção era um pedido de aceitação dos sacrifícios. Quando o Templo foi destruido no ano 70 d.C., ela foi modificada substancialmente, transformando-se em uma invocação, pedindo a Deus que aceitasse a oração da sinagoga e restaurasse o serviço sacerdotal. A segunda permaneceu uma prece de agradecimento, enquanto a terceira retoma e conclui a benção dos kohanim (“sacerdotes”) sobre o povo, no final dos sacrifícios das oferendas. 

A primeira destas bençãos é chamada avodah (“serviço”), porque nela se pede a Deus o restabelecimento do culto divino em Jerusalém; a segunda é chamada hodayah (“agradecimento”) porque desenvolve o tema da gratidão pelos benefícios recebidos de Deus; finalmente a terceira é denominada birkat ha-shalom (“benção da paz”) porque suplica a Deus prosperidade e bem-estar.  Já que em algumas ocasiões, esta última benção é precedida da benção sacerdotal , ela é também denominada birkat kohanim (“benção dos sacerdotes”). 

Apesar de serem diferentes os temas desenvolvidos nas bençãos, a tradição hebraica gosta de definir todas as três como “bençãos de agradecimento”. O motivo é que todo sentimento de gratidão é necessariamente ligado ao atendimento da oração e ao dom da paz. Realmente só pode agradecer aquele a quem Deus escutou e inundou de paz.  Assim sendo, a benção central é tida como o eixo de gravidade das três bençãos finais, cujo sentido é resumido e condensado no termo modim (da raiz yhd). 

Os comentadores gostam de observar que este termo tem três significados principais. Modim, antes de mais nada, significa “prostrar-se”, “inclinar-se” (de onde a prescrição de fazer uma inclinação no início e no fim desta benção); em segundo lugar significa “reconhecer”, “confessar”; finalmente “ser grato”, “agradecer”. Uma vez que chegam ao final de sua tefillah, a comunidade repete o seu gesto de adoração, confissão e de agradecimento, a única triplice atitude de toda oração verdadeira. 

Pr Marcelo Oliveira 

As três bençãos de louvor na cultura judaica

As três primeiras bençãos são chamadas “bençãos de louvor” porque nelas prevalece o tema da glorificação do nome de Deus. A primeira é conhecida como ‘avot (“Patriarcas”) porque se refere a Deus como “Deus dos Patriarcas”; a segunda gevurot (“poderes”) porque celebra as maiores obras de Deus que manifestam sua força e seu poder; a terceira como qedushat há-shem (“santificação do Nome”) porque fala da santidade e da soberana liberdade de Deus:

1. Sê benditor, Senhor nosso Deus e Deus de nossos pais, Deus de Abraão, de Isaque e Deus de Jacó, Deus grande forte e venerado. Deus excelso, que dás recompensa e crias todas as coisas; lembra-te da piedade dois pais e faz que o redentor venha para os filhos dos seus filhos, em favor do teu Nome, com amor. Rei libertador, que ajudas, salvas e defendes. Sê bendito, Senhor, escudo de Abraão.
2. Tu és poderoso eternamente, Senhor que resssuscitas os mortos, que és grande ao conceder salvação (no verão diz: “que fazes cair a geada” e no inverno: “que fazes soprar o vento e cair a chuva”). Ele alimenta os vivos por bondade, faz os mortos ressurgirem com grande misericórdia, faz os que estão caindo manterem-se de pé, cura os doentes, liberta os prisioneiros, mantém-se fiel à sua promessa aos que jazem no túmulo. Quem é poderoso como tu? Quem é semelhante a ti, ó Rei que fazes morrer e ressuscitar, e brotar para nós a salvação? Tu és fiel ao ressuscitares os mortos. Sê bendito, Senhor, que ressuscitas os mortos.
3. Proclamamos a realeza de Deus de geração em geração, porque só Ele é excelso e santo. O teu louvor, ó nosso Deus, não seja diminuído por nossos lábios eternamente, porque tu és um Deus rei, grande e santo.
Estas três bençãos respondem à pergunta: quem é Deus para o homem e quem é o homem para Deus? A resposta da primeira pergunta é dada recordando e elucidando os três atributos fundamentais de Deus: gadol (grande), gibbor (forte) e qadosh (santo). A primeira benção desenvolve o tema de Deus que é grande no amor, como mostra a história dos patriarcas; a segunda, o tema de que Deus é poderoso em suas obras, como mostram a criação e sobretudo a ressurreição dos mortos, nova e ainda mais admirável criação; a terceira, o tema de Deus cujo nome é santo, como mostra a própria corte celeste à qual a assembleia é convidada a unir-se ao seu tríplice canto de “qadosh, qadosh, qadosh”.

Inédito: Novo Livro!

Caríssimos irmãos e irmãs,

É com alegria e pela graça de Deus que estou lançando, em parceria com o  amigo Pr. Josivaldo Pereira, nosso novo livro Personagens Esquecidos da Bíblia. O prefácio é do renomado Dr. Russell P. Shedd e a apresentação do não menos consagrado Rev. Hernandes Dias Lopes. Eis um trecho do prefácio e apresentação da obra:


“Biografias bíblicas existem em abundância no mercado, mas creio que não existe qualquer tomo como este. (…). Quem imaginaria que haveria subsídios para escrever algumas páginas sobre ‘Malco’ ou os ‘Filhos de Ceva’? Nunca ouvi algum pastor ou professor da Escola Bíblica Dominical tirar lições das vidas de pessoas como ‘Benaia’, ‘Apeles’ ou as ‘Filhas de Zelofeade’” (Russell Shedd, do Prefácio).


“[Este livro] difere de tantos que já li, porque se dedica a estudar personagens bíblicos que, embora tenham exercido papel importante na História, não estiveram no palco da fama. Esses homens e mulheres que viveram nos bastidores são como tantos heróis anônimos, que não têm seus nomes nas manchetes, mas são conhecidos e amados no céu, além de serem grandes agentes de Deus na terra” (Hernandes Dias Lopes, da Apresentação).


Adquira o seu por apenas R$29,90 (vinte e nove reais e noventa centavos). O frete dos correios já está incluso para todo o Brasil. Basta fazer o depósito nos seguintes bancos:

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Nome: Marcelo de Oliveira 

 

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NOME: MARCELO DE OLIVEIRA 

 

grato, Pr Marcelo Oliveira

O Evangelho da graça sob ataque

As igrejas da Galácia estavam sendo seduzidas pelos falsos mestres, e o evangelho da graça estava sob fogo cruzado. Os judaizantes espalhavam entre as igrejas gentílicas que Paulo não era um apóstolo autorizado e que sua mensagem não era verdadeira.  Estes falsos mestres tornavam a obra de Cristo na cruz insuficiente e acrescentaram as obras da lei como condição indispensável para a salvação. É contra estes falsos mestres, com firmeza e coragem que Paulo empunha a espada do Espírito para repreender a igreja e anatematizar os hereges.

O Abandono do Evangelho

 

1)  O espanto do apóstolo Paulo (Gl 1.6) – Paulo está perplexo com a atitude das igrejas da Galácia. Aqueles irmãos que haviam abraçado o Evangelho, para logo depois abandoná-lo trocando por uma mensagem diferente, um outro evangelho, que de fato não era Evangelho. Paulo está admirado ao ver a rapidez que esses crentes estavam apostatando da fé.  Em vez de dar graças a Deus pela igreja no intróito da carta, como de costume fazia nas outras epístolas, Paulo revela seu espanto pela inconstância e instabilidade dos gálatas. Na verdade, Gálatas é a única carta em que não há oração, louvor, ação de graças, nem elogios.

 

2) A apostasia dos cristãos (Gl 1.6) – As igrejas da Galácia estavam virando a casaca e abandonando com grande rapidez o evangelho, a ponto de trocar o verdadeiro evangelho por um falso. Abandonaram a graça para colocar-se debaixo do jugo da lei. O que diriamos nós acerca da apostasia que atinge os redutos chamados evangélicos, em que o sincretismo religioso está substituindo o evangelho?

 

A ideia do original não é “que tenhais sido afastados tão depressa”- mas que “estejais passando tão depressa” – a palavra grega metatithemi, significa, “transferir a fidelidade” – estavam mudando de partido religioso. Tornaram-se “casacas religiosos” e desertores espirituais”.

 

3) O abandono ao Deus da Palavra e à Palavra de Deus – O cristianismo não é apenas a adoção de um credo, mas, também, a sustentanção de um relacionamento. Apostasia não é apenas o abandono da doutrina ortodoxa, mas também a deserção do próprio Deus. Não apenas o Evangelho eles haviam abandonado, mas também o Deus anunciado pelo Evangelho. Eles estavam afastando-se do Deus de toda graça. Afastar-se do evangelho da graça, é afastar-se do Deus da graça!

 

4) O outro Evangelho não é o Evangelho verdadeiro (Gl 1.6,7) – Paulo usa aqui um trocadilho de palavras para desmascarar o outro evangelho (cf. Atos 15.1) anunciado pelos judaizantes. Há duas palavras no grego para “outro” – heteros – outro de outra substância, diferente; e allos – outro da mesma substância, tipo e essência. A palavra allos é o mesmo termo que aparece em Jo 14.16 – “outro consolador” – ou seja, do mesmo tipo, essência e substância. Isto é uma prova irrefutável que o Espírito Santo é Deus e não uma força ativa como querem os TJ.

 

O verdadeiro evangelho é o Evangelho da graça, da salvação pela fé em Cristo. Este evangelho difere radicalmente do anunciado pelos judaizantes. O Evangelho que Paulo anunciava, consistia em “o homem não é justificado pelas obras da lei, sim, mediante a fé em Cristo Jesus (Gl 2.16; Rm 3.24; Ef 2.8)

 

A singularidade do Evangelho

 

Depois de falar da apostasia da igreja e da ação nociva dos falsos mestres, Paulo reafirma a singularidade do Evangelho, evocando a maldição divina para todos os que pervertem o Evangelho e pertubam a igreja de Deus com falsas doutrinas.

1)  O Evangelho é maior que os apóstolos (Gl 1.8) – “Mais ainda que nós” (grifo do autor). Paulo estava tão convencido de que não havia outro evangelho, que invocou a maldição de Deus sobre a própria vida, num caso hipotético de pregar um evangelho que fosse além daquele já anunciado aos gálatas.

2)  O Evangelho é maior que os anjos (Gl 1.8) – depois de afirmar que o Evangelho é maior que os apóstolos, Paulo afirma que o Evangelho é maior que os anjos. Jamais o céu enviaria um mensageiro com um segundo evangelho.

3) O Evangelho é maior que os falsos mestres (Gl 1.9) – Depois de citar dois casos hipotéticos no versículo 8, Paulo menciona uma possibilidade real no versículo 9. Como representante autorizado de Cristo, pronuncia a maldição sobre os judaizantes que estavam cometendo o crime de chamar de falso o verdadeiro Evangelho e tratando de colocar o falso evangelho no lugar daquele que salva.

4)  A motivação do Evangelho (Gl 1.10) – Paulo não negociou a verdade para procurar o favor dos homens. Paulo era um apóstolo e não apóstata. Ele estava a serviço de Cristo, não de homens.

Nele, que é o Evangelho da graça

Pr Marcelo Oliveira

 

Igreja – Culto ou Missões?

Uma igreja só pode ser verdadeiramente missionária se for verdadeiramente adoradora e vice-versa.[1] Orlando Costas acerta quando diz que “o culto está intrinsecamente relacionado com a ação de Deus na história e a conversão das nações ao Deus trino e uno”.[2]

E ainda:

O culto, em sua dimensão humana, surge da missão. É o resultado espontâneo da experiência da redenção. Do mesmo modo, a missão deve ser vista como um acontecimento cultual, porquanto celebra o que Deus tem feito por homens e mulheresem Jesus Cristo e os chama a receber e compartilhar o dom da graça de Deus.[3]

Um dos maiores males que têm assolado, dividido e enfraquecido a igreja evangélica brasileira em nossos dias são os constantes debates em torno da tarefa prioritária da igreja. E não estamos nos referindo à questão da evangelização e responsabilidade social, outro assunto desnecessariamente polarizado.[4] Ao contrário, estamos falando da dicotomia existente entre culto e missões. E a discussão não é se a igreja deve adorar ou evangelizar (embora às vezes é o que de fato acontece), mas sim, o que deve ser considerado em primeiro lugar.

As opiniões são as mais variadas e extremistas até. De um lado temos os que insistem que “missões são a segunda mais importante atividade no mundo”, ou que “missões existem porque o culto não existe”. Do outro lado, tem quem afirme ser “um absurdo dizer que muitas são as responsabilidades da igreja. Igreja é missões”. Para os defensores da primeira posição, só o fato do culto ser dirigido a Deus e as missões aos homens já definiria, por si só, a questão da prioridade da igreja. Os defensores da segunda posição argumentam, por sua vez, que é preciso mais que adoração. “É preciso ter paixão pelos perdidos e obedecer ao Idede Jesus”. Será que precisamos mesmo priorizar uma tarefa em detrimento da outra, como temos visto na prática? Será que podemos afirmar que culto é mais importante que missões ou vice-versa? Mais uma vez contamos com o argumento equilibrado de Orlando Costas:

Não existe dicotomia alguma entre culto e missão. O culto é a reunião do povo enviado ao mundo para celebrar o que Deus fez em Cristo e está fazendo mediante a participação deles na ação testemunhal do Espírito. A missão é a culminação e antecipação do culto. No culto e na missão a comunidade redimida dá evidência concreta do fato de que é, ao mesmo tempo, um povo de oração e testemunho”.[5]

 

Vemos, então, que o culto deve levar a igreja a fazer missões (cf. At 2.42-47), e missões, por sua vez, devem levar os perdidos a prestarem culto a Deus (cf. At 13.44-49); pois uma adoração que não leva a igreja a evangelizar não passa de mera contemplação, e uma evangelização que não leva os pecadores a adorarem a Deus está fora dos propósitos do próprio Deus. “A liturgia sem missão é como um rio sem manancial, a missão sem culto é como um rio sem mar. Ambos são necessários. Sem um o outro perde sua vitalidade e significado”.[6] Culto e missões são tarefas primordiais da igreja. Devem caminhar lado a lado se queremos fazer justiça ao nome de Deus. São tarefas distintas que se completam. Os dois lados, por assim dizer, de uma mesma moeda. Não são fins em si mesmos; são, porém, meios para se chegar ao fim que é o de “glorificarmos a Deus e nos alegrarmos nele para sempre”.

É claro que, quanto à duração, missões são temporárias e a adoração é eterna, continuará no céu; mas enquanto estamos neste mundo não temos o direito de priorizar uma tarefa em detrimento da outra. O Deus que exige ser adorado é o mesmo que ordena seu povo a pregar o evangelho a todas as etnias do mundo. E mesmo que a evangelização seja dirigida ao homem, não significa que seja uma invenção humana. Deus é o autor do culto e de missões e requer uma e outra coisa de nós. Por isso, como igreja de Jesus Cristo, não podemos deixar de trabalhar e adorar.

Pr Josivaldo Pereira

“Alguns trabalham sem se preocupar em adorar a Deus, outros o adoram sem trabalhar, porém, o cristão autêntico tanto adora como trabalha” (Allan H. Ferry).


[1] Segundo Orlando Costas, “a prova de uma vigorosa experiência cultual será a participação dinâmica na missão: a prova de um fiel compromisso missionário será uma profunda experiência de culto” (Orlando E. COSTAS, Compromiso y misión.San José-Costa Rica: Editorial Caribe, 1979, p. 151).

[2] Idem, p. 150.

[3] Ibidem.

[4] Cf. Evangelização e responsabilidade social. 2a ed. São Paulo-Belo Horizonte: ABU Editora/Mundo Cristão, 1985, p. 17-25.

[5] COSTAS, op. cit., p. 150.

[6] Idem, p. 150,151.

Jemima, Quésia, Queren-Hapuque

Jó sabia que havia sido derrotado. Não havia meio de pleitear sua causa diante de Deus. Usando as palavras do próprio Deus (Jó 42.3,4), Jó humilhou-se diante do Senhor e reconheceu o poder e a justiça de Deus na execução de seus planos (v. 2). Jó admitiu que havia falado coisas que não compreendia (v.3). Retirou suas acusações de que Deus não o havia tratado com justiça. Percebeu que tudo o que Deus fazia era certo e que o ser humano deveria aceitar pela fé todas as coisas das mãos de Deus.

Disse Jó ao Eterno: “Não sou capaz de responder suas perguntas! Só me resta confessar meu orgulho, me humilhar e me arrepender”. Até então, o conhecimento de Jó acerca de Deus havia sido indireto e impessoal, mas isso havia mudado. Jó havia se encontrado com Deus pessoalmente e se dado conta de que ele próprio não passava de pó e cinzas (Jó 2.8, 12; Jó 42.6).

Nas palavras de Spurgeon: “A porta do arrependimento abre-se para o salão da alegria”, e foi exatamente o que aconteceu com Jó. No auge do livro, Jó, o pecador, torna-se Jó, o servo de Deus (Jó 42.7-9). Em quatro ocasiões nesses versículos, Deus usa um título especial no Antigo Testamento: “Meu servo” (Jó 1.8; 2.3). De que maneira Jó serviu ao Senhor? Suportando o sofrimento sem amaldiçoar a Deus e, portanto, calando o diabo! O sofrimento que ocorre dentro da vontade de Deus é um ministério que Deus concede a uns poucos escolhidos.

Porém, o servo Jó torna-se também o intercessor. Deus estava irado com os três amigos, pois eles não haviam dito a Jó a verdade sobre Deus (Jó 42.7) e precisavam se reconciliar com Jó para que ele pudesse orar pelos três. Jó se transformou no mediador entre Deus e seus amigos. Ao perdoar os amigos e orar por eles, Jó trouxe de volta as bençãos para a própria vida (v. 10). Quando nos recusamos a perdoar a outros, provocamos nosso próprio sofrimento.

Outra curiosidade desta passagem é a menção da herança pelas filhas, junto com os filhos, dos bens do pai, Jó. Para nós isto é normal. No mundo antigo, entretanto, era fora do comum. Mas a situação do Jó não era nada comum. E ele ficou tão agradecido que deu a estas lindas filhas, nomes que demonstraram a sua gratidão: Jemima (“o dia”), porque a noite escura de sofrimento se findou; Cássia (uma erva muito fragante),porque Deus sarou as úlceras que fediam tanto;  e Querém-Hapuque (“abudância restorada” ou “chifre de tinta”), porque Deus secou as suas lágrimas do seu rosto envermelhado de tristeza (16.16). Ou seja, marcou definitivamente a mudança da sua sorte.

 

À primeira deu o nome de Jemima; à segunda chamou de Cássia; e à terceira, de Querém-Hapuque. No mundo inteiro não havia mulheres tão lindas como as filhas de Jó. E o pai as fez herdeiras dos seus bens, junto com os seus irmãos. (Jó 42.14,15).

Pr Marcelo Oliveira

Teólogos sem Deus!

“Os doutores da lei não me conheceram” – Jeremias 2.8 (Almeida Século 21)

Triste declaração da parte do Senhor: “Os doutores da lei não me conheceram”.  Havia em Jerusalém um grupo de teólogos que desconhecia a Deus e que empurrou Judá para a destruição. Esta é uma das maiores desgraças que pode acontecer também à igreja: homens que não conhecem a Deus liderando-a, e formando opinião de outros líderes. É a ruína da igreja. Teólogos sem Deus! Infelizmente os há! Conhecem algumas coisas sobre Deus, mas não conhecem a Deus.

O verbo traduzido por “conheceram” é declinação do hebraico yadha, cujo significado não é o conhecimento cognitivo ou informativo, mas experiencial e relacional. É o verbo usado para descrever a conjunção carnal entre marido e mulher. Como nas antigas traduções “E Adão conheceu a sua mulher”. Este é o maior tipo de conhecimento que se pode ter de uma pessoa, na cultura bíblica, a ponto dos dois serem uma só carne. Conhecem-se a ponto de se identificar e de fundir numa só pessoa.

O conhecimento de Deus não pode ser livresco, mas sempre vivencial. Os teólogos dos dias de Jeremias não tinham experiência com Deus. Estudavam a lei, possuíam informações sobre Deus, mas não o conheciam pessoalmente.

Eles aparecem neste versículo com mais três grupos de homens: sacerdotes, governantes e profetas. Estes quatro grupos aparecem no livro como inimigos de Jeremias, que mesmo desprezado por eles era o verdadeiro teólogo. Zombavam dele. Obstaculavam seu ministério. Iludiam o povo. Conduziram a nação à destruição.

Há hoje doutores da lei que não conhecem a Deus. Têm informações sobre ele. Fazem jogos de palavras, brincam com conceitos, expõem e alinhavam bem seus argumentos. Mas não têm conhecimento experiencial de Deus. Zombam dos profetas fiéis e os ridicularizam, chamando-os de “fundamentalistas” ou “despreparados”, e na sua empáfia julgam-se os categorizados para conduzir o povo de Deus.

Sempre lembro que a primeira vez que alguém falou de Deus na terceira pessoa do singular, chamando-o de “ele”, foi a serpente, no Éden. O resultado da exegese desta primeira teóloga que se referiu a Deus como “ele” não foi muito benéfico. O verdadeiro teólogo fala de Deus na primeira pessoa do singular. Conhece a Deus e o chama de “Tu”.

Teologia não é apenas um discurso sobre Deus, mas deve ser um discurso temente a Deus, com Deus, diante de Deus, em respeito a Deus. Não pode haver teologia sem espiritualidade, até mesmo porque é o Espírito Santo quem nos revela os ensinos de Cristo (Jo 14.26) e é ele o autor último das Escrituras (2Pe 1.21). Um bom aprendizado teológico começa com um coração rendido a Cristo, orientado pelo Espírito Santo, e que se abebera nas Escrituras.

Há teólogos como os do tempo de Jeremias. Têm o domínio da mídia teológica e mais aparência. Têm mais visibilidade e são considerados como pessoas mais agradáveis por muitas pessoas. Não é se admirar porque uma das características dos teólogos sem Deus é falar o que pecador impenitente quer ouvir, e não o que deve ouvir da parte de Deus.

Se você quer ser um bom teólogo, conheça ao Senhor. Conheça-o mais que a pensadores seculares. Reja-se pela Palavra dele e não pela palavra deles. Não seja um teólogo sem Deus.  Um coração rendido a Deus e orientado pelo Espírito pode descobrir as verdades espirituais. E fuja da pessoa enfatuada, que sabe muito, mas que não mostra conhecer ao Senhor.

Teólogos sem Deus atrapalham a obra de Deus. A ele darão contas.

Pr Isaltino Gomes

O SALMO MAIS TRISTE DA BÍBLIA

Hemã, filho de Joel, foi um dos músicos do templo durante o reinado de Davi (1 Cr 6.33; 2 Cr 35.15) e é o candidato mais provável à autoria deste salmo. A segunda opção é Hemã, filho de Maol, um dos sábios durante o reinado de Salomão (1 Rs 4.31). Os termos hebraicos mahalat e leannoth significam “enfermidade” e “para cantar” ou “para humilhar”, respectivamente. É provável que a primeira palavra se refira a uma melodia triste para acompanhar esse cântico melancólico, enquanto a segunda palavra pode identificar o propósito do salmo: nos humilhar diante do Senhor.

 

Este é o último salmo dos “filhos de Corá” e, talvez, o cântico mais lastimoso de todo o livro. No texto hebraico, o salmo termina com a palavra hoshek, “trevas”, e não encerra com um tom de triunfo, como acontece com outros salmos que começam com sofrimento e perplexidade. Este salmo fala de trevas (vv. 1,6,12,18), da vida à beira da morte (vv. 5,10,11), da sensação de estar afogando (vv. 7,16,17), da solidão (vv. 5,8,14,18) e da prisão (v. 8).

 

Hemã era um servo de Deus que experimentava sofrimento intenso, sem compreender o motivo de sua aflição. Ainda assim, perseverou em suas orações a Deus e não abandonou a sua fé.

 

Buscando o ETERNO pela fé (Sl 88.1,2) – A vida de Hemã não havia sido fácil (v. 15), agora, torna-se ainda mais difícil, a ponto de ele sentir que está à beira da morte (vv. 3,10,11). Mas ele não desiste! Continua confiando em Deus, ao qual se dirige como “Senhor”, quatro vezes nesta oração (vv. 1,9,13,14). Iavé é o nome do Senhor que enfatiza sua relação de aliança com seu povo, e Hemã era um filho dessa aliança. Ele também se dirige ao Senhor como “Deus Elohim” – designação que expressa seu poder.

A expressão “Deus da minha salvação” indica que Hemã havia confiado que o Senhor o salvaria, e o fato de orar dessa maneira mostra que sua fé ainda está viva. Em três ocasiões, o texto diz que ele clamou ao Senhor e, para isso, são usadas três palavras diferentes: verso 1 – “um clamor por socorro em meio a grande aflição”; verso 2 – “um grito alto”; verso 13 – “um clamor de angústia”. A oração de Hemã é fervorosa. Ele crê que Deus pode ouvir suas súplicas e fazer maravilhas (vv. 10,12), um Deus que o ama e que é fiel a seu povo (v.11).

 

Dizer ao ETERNO como nos sentimos (vv. 3-9) – Não há lugar para a hipocrisia na oração pessoal. Um dos primeiros passos para o reavivamento é a mais completa transparência ao orar e a determinação de não dizer ao Senhor coisa alguma que não seja verdadeira e sincera. Hemã confessa que sua alma “está farta de males” e que se sente como um “morto-vivo”. Não tem forças e se sente abandonado pelo Senhor.

Hemã, também diz ao Senhor que Ele é responsável pelos males que aflige seu servo! A mão de Deus o colocou na cova (sheol), e a ira de Deus flui sobre ele como as ondas do mar. Ele não tem riquezas, não tem luz, não tem amigos – e sente como se não tivesse Deus! É um prisioneiro sem qualquer esperança de escapar. Como Jó, Hemã deseja saber o motivo desse sofrimento que lhe sobreveio.

 

Defender nossa causa diante do ETERNO (vv. 10-14) – O argumento de Hemã é simplesmente de que sua morte privará Deus da grande oportunidade de demonstrar seu poder e glória. Que serventia Hemã teria para o Senhor no sheol? Os espíritos dos falecidos não se levantam no mundo dos mortos para obedecer às ordens do Senhor (cf. Is 14.9-11), mas Hemã pode servir ao Senhor na terra dos vivos (cf. Sl 30.8-10). Antes de ir ao santuário para auxiliar no culto, Hemã ora pedindo que o Senhor conceda restabelecimento e forças, e, no final de um dia atarefado, volta a orar.

Durante seu ministério diário, ouve a benção sacerdotal: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha  misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz” (Nm 6.24-26), mas não recebe! Sente-se rejeitado e sabe que o rosto de Deus não está voltado para ele. Ainda assim, ele continua orando!

 

Esperar pela resposta do ETERNO (vv. 15-18) – Não sabemos o que foi essa aflição que lhe sobreveio ainda em sua juventude, mas é triste pensar que sofria todos os dias e o dia todo (vv. 15-17). Nem sequer conseguia se lembrar de uma época em que desfrutasse de boa saúde. Os vagalhões que quase o afogam (v. 7) transformaram-se em ondas abrasadoras de tormento (v. 16).

A escuridão é sua amiga, pois o esconde dos olhos daqueles que observam seus sofrimentos e talvez digam (como fizeram os amigos de Jó): “Deve ter pecado grandemente para que o Senhor o aflija de tal modo!”. Mas ele continua orando e buscando o socorro de Deus!

“Embora ele me mate, ainda assim esperarei nele” (Jó 13.15). “Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes. Espera pelo Senhor, tem bom ânimo, e fortifique o seu coração; espera, pois, pelo Senhor” (Sl 27.13,14). O ETERNO sempre tem a última palavra, e ela não será “trevas”. Quando estamos em trevas, não devemos jamais duvidar daquilo que o Senhor nos ensinou na luz.

Pr Marcello Oliveira

Bibliografia: Kidner, Derek. Salmos 73-150, Introd. e Comentário. Ed. Vida Nova

Agostinho, Santo. Comentário aos Salmos. Ed. Paulus

Wiersbe, Warren. Comentário Expositivo. Geográfica Editora

 

 

A torre de Babel

“Assim o Senhor os dispersou dali por toda a terra, e pararam de construir a cidade” (Gênesis 11.8)

Aparentemente, esta torre, trata-se de um zigurate, ou seja, uma enorme pirâmide babilônica com terraços em toda a volta. As escavações arqueológicas encontraram várias construções desse tipo, sendo a mais antiga datada do terceiro milênio antes de Cristo.

O que teria desagrado a Deus em relação à torre de Babel? Afinal, o avanço tecnológico se deve ao gênio inventivo dos seres humanos, criados à imagem de Deus. O que estaria de errando então? O erro está na motivação egoísta de seus construtores.

Primeiramente, eles são culpados por terem desobedecido a Deus. Deus havia deixado uma ordem aos seres humanos: “Encham e subjugam a terra”. Essa ordem foi repetida após o dilúvio (Gn 1.28, 9.1). Os descendentes de Noé inicialmente obedeceram, mas quando alcançaram a planície da Mesopotâmia, “ali se fixaram” (Gn 11.2). Em vez de explorar a terra e desenvolver todo o seu potencial, eles se acomodaram e preferiram ficar ali, em segurança. O mundo sofre até hoje as conseqüências dessa desobediência. Ainda não resolvemos o problema da energia nem inventamos uma maneira mais barata de dessalinizar a água do mar para irrigar os desertos e alimentar os famintos.

Segundo, a construção da torre foi um ato de arrogância de seus construtores. “Nosso nome será famoso”, eles disseram,  “e não seremos espalhados pela face da terra”, pois vamos construir “uma cidade, com uma torre que alcance os céus” (Gn 11.4). Insatisfeitos em permanecer dentro dos limites terrenos, eles desejavam chegar ao céu, a morada de Deus. Assim, ao longo das Escrituras, a Babilônia simboliza essa arrogância insolente que os gregos costumavam chamar de hubris. Trata-se da própria essência do pecado.

Não é de admirar que o juízo de Deus tenha caído sobre eles. Primeiro, Deus fez com que eles se espalhassem por toda terra, obrigando-os a fazer o que deveria ter feito voluntariamente. Segundo, para eles se dispersassem, Deus confundiu suas línguas. A língua é algo vivo, dinâmico, sujeito a mudanças; pode provocar uma separação entre comunidades de línguas diferentes, e ao mesmo tempo causar mudanças de linguagem nas comunidades isoladas.

A história de Babel se contrapõe ao episódio ocorrido no grande dia de Pentecoste, quando as pessoas de todas as nações do mundo ouviram falar das maravilhas de Deus, cada um em sua própria língua.

Marcelo Oliveira

Bibliografia: Stott, John. A Bíblia Toda, Ano todo. Editora Ultimato

Wiersbe, Warren. Comentário Expositivo. Geográfica Editora